top of page

Dieta keto para depressão?

  • Foto do escritor: Jennifer Eissmann
    Jennifer Eissmann
  • 9 de jan.
  • 3 min de leitura

Neste mês de janeiro foi publicado na revista JAMA Psychiatry (doi:10.1001/jamapsychiatry.2025.3261) um estudo de revisão sistemática com o objetivo de avaliar a associação entre dieta cetogênica e sintomas de depressão e ansiedade. Agora traduzindo do cientifiquês para o português: revisão sistemática é um estudo que lê todos os estudos já publicados desse tema e faz um parecer. E dieta cetogênica é uma dieta de muito baixo carboidrato, coisa de menos de 50g por dia, ou 26% da energia total vinda de carbo (uma normal tem 55-65%). Isso significa que esse estudo analisou 50 outros estudos para verificar se dieta com menos de 50g de carbo por dia diminui sintomas de ansiedade e depressão. Melhor assim, não?


Capa do artigo que é de janeiro de 2026.
Capa do artigo que é de janeiro de 2026.

Eles analisaram 50 estudos, que, somados, contaram com a participação de 41.718 pessoas. Vou te dizer, esse número de pessoas é relevante. É gente suficiente para dizer: humm, pode ser que isso dê para extrapolar para a população. Alguns desses estudos tinham controle, outros não. Grupo controle é quando eles dividem os participantes em dois grupos. Um com a dieta keto, outro com dieta normal e depois comparam os resultados desses dois grupos. Pois então, no geral, foi um estudo muito bem feito.


Essa é a pirâmide alimentar da dieta keto. Uma dieta normal tem 55% de carboidrato (carbs), 20% proteína (protein) e 25% de gordura (fat) Fonte: https://www.kemin.com/na/en-us/blog/human-nutrition/weighing-in-on-the-keto-diet
Essa é a pirâmide alimentar da dieta keto. Uma dieta normal tem 55% de carboidrato (carbs), 20% proteína (protein) e 25% de gordura (fat) Fonte: https://www.kemin.com/na/en-us/blog/human-nutrition/weighing-in-on-the-keto-diet

E eles resolveram fazer esse estudo, pois já há um consenso de que a dieta keto reduz crises em quem tem epilepsia refratária. Isso é demais, né? E, com base nisso, há a teoria de que a keto melhora transtornos mentais (ansiedade e depressão) e do desenvolvimento (tdah e autismo). Isso porque os neurônios, ao invés de consumir carboidratos, vai consumir corpos cetônicos, que é o produto do uso da gordura como fonte de energia. Esse uso melhoraia a funçaõ mitocontrial, reduziria o estresse oxidativo e a inflamação sistêmica, modularia neurotransmissores e estabilizaria redes neurais. Isso tudo ainda não tem evidência concreta, ainda estão em investigação, mas há resultados promissores.


Os pesquisadores concluíram que quem fez keto teve uma melhora pequena à média nos sintomas de depressão. E a ansiedade continuou igual. Dentro do grupo dos que melhoraram da depressão, tiveram os que melhoraram menos e os que melhoraram mais. Pois bem, melhorou mais quem usou um monitor de glicose para monitorar a cetose. Isso é basicamente usar o monitor para ver se o corpo está produzindo os corpos cetônicos, ou seja, ver se a dieta keto está ‘fazendo efeito’. Isso porque melhorou mais quem diminuiu mais o carbo. E também melhorou mais quem tinha peso normal.


Exemplo de um cardápio keto de um dia. Facinho de comprar, de ter na geladeira e de cozinhar todo dia, né? Fonte: https://selar.com/1pip?currency=ZAR
Exemplo de um cardápio keto de um dia. Facinho de comprar, de ter na geladeira e de cozinhar todo dia, né? Fonte: https://selar.com/1pip?currency=ZAR

Muito bem, o estudo tem ótimos resultados. Então quer dizer que podemos começar a prescrever dieta cetogênica para todo mundo que tem depressão? ERRADO! Para mim, esse estudo ainda não muda a prática clínica. Não muda, porque a keto é uma dieta extremamente difícil de se manter. Quem não tem energia para levantar da cama de manhã ou lavar o cabelo ou escovar os dentes (sabia que pessoas com depressão tem mais cáries?) não vai ter energia para fazer uma dieta mega restritiva. Já tentou quase zerar carboidrato? É mega difícil. Agora imagina fazer isso por meses, praticamente impossível. Mas em instituições, como hospitais e clínicas psiquiátricas, penso que essa dieta pode ser mantida e o conhecimento que esse estudo traz é muito bem vindo. Queria trazer esse tema aqui, porque não é pq saiu um excelente artigo que ele vai ser útil. A nutricionista que tem prática baseada em evidências vai considerar, além da melhor evidência, também o contexto do paciente antes de prescrever uma dieta. O modo com que o paciente vive e deseja viver a vida dele também importa (apesar de muitos clínicos acharem que não, que é tudo falta de vergonha na cara, são um bando de preguiçosos, isso sim). Por isso, quando for à um profissional da saúde, pense também se aquela orientação cabe na sua vida e debata isso dentro do consultório, por favor.

 
 
 

Posts recentes

Ver tudo
Criar uma criança é um portal (1)

A maior parte das mulheres que atendo tem filhos. E entre elas, há um comportamento que se repete, o de dar o jantar para a criança,...

 
 
 

Comentários


Cadastre-se

47 98825-7114

©2018 by Nutricionista Jennifer Eissmann. Proudly created with Wix.com

bottom of page